Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Simply... delicious!
Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006
After the rain

Escorrem as lágrimas por entre os dias, como chuva entre os cabelos num temporal…
Pesa-me uma solidão cinzenta e carregada como as nuvens baixas que abafam um céu azul demasiado alto e inatingível…
Tiquetaqueia o coração como máquina presa num pêndulo monótono, sem sonhos…
Sua o corpo num desejo demasiado frio, enluarado na ausência do calor de um corpo de mulher…
Voa, veloz, um sonho abandonado precipitadamente numa revoada de paixão…
Cala-se-me a voz na dôr de um corpo já insensível…
Rio-me da tristeza que me assola…
Rostos que não recordo olham-me de revés, suspeitos…
Já fui… deixei de me ser.
Publicado por jkanoni às 21:42
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Domingo, 22 de Outubro de 2006
Arena

Fim de tarde de tempestade.
Fora de casa o vento uiva entre as janelas abertas de par em par, suando no calor que transpira pelas paredes. Foi um dia abafado: dia de nuvens traiçoeiras que enganaram um sol que nunca teve a oportunidade de brilhar…
Sinto a chuva prenhe em nuvens baixas e gordas; o vento arranca as folhas imberbes despindo uma primavera que teima em florescer nesta terra quente de tons ôcres…
Sentado numa cadeira, no terraço, até onde o horizonte deixa avistar, reflectem-se relâmpagos no copo de vinho branco seco que me refresca a alma enquanto as brasas crepitam no churrasco acabado de acender. O fumo é mínimo: o vento absorve-o em golfadas, cospe-o em revoadas como um fantasma, em torno das árvores, do capim, da poeira... até se confundir com as nuvens.
O livro cai da cadeira, aberto; as páginas voltam-se, sem serem lidas, como os dias que passam sem me aperceber de os ter vivido : capítulos que não voltarei a escrever, que já se desintegraram numa monotonia apenas quebrada agora por um céu caótico...
Tinge-se o céu de vermelho enquanto um sol derrotado se enconde para lá do azimute, vencido por espadas refulgentes de luz, fugazes mas tão mais fortes; as nuvens teimam em ditar a sua supremacia...
Caem lágrimas de um céu desolado: ao princípio envergonhadas, como que escondidas timidamente por uma mão feminina, cegas de um olhar traído de amor; depois, reclamando um pranto incontido, num choro desesperado que se esvai de uma vida... o sangue do céu escorre sobre esta terra eternamente sedenta: de amor, de alegria, de paz, de saciedade...
Juntam-se os clamores dos trovões às grossas bátegas de chuva que crepitam no solo iluminadas por raios enraivecidos...
A terra chora todo o meu medo, a minha dor, a minha solidão; os trovões emudecem os gritos que me rasgam por dentro; os raios cegam-me o fundo do olhar, tornando brancas as pupilas; os trovões estremecem a terra que teima em me clamar, sedenta...
Embrutecido pela tempestade, vejo uma cobra serpentear-se parede acima, lânguidamente preguiçosa, ignorando tudo o que raivosamente se precipita nesta terra... chegando ao topo, enrola-se e forma um anel onde tudo envolve: vejo-me lá dentro, com a tempestade, a chuva, os trovões, os relâmpagos distantes de mim... pairando silenciosamente como num sonho... alheado de tudo... alheado de mim próprio...
Vence-me um sono tardio e reconfortante enquanto uma lua me pisca o olho acima das nuvens que se espraiam num mar cansado de marés revoltas...
Publicado por jkanoni às 12:26
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
RAIVA!

Começa, embrionária, na ponta dos dedos, como um formigueiro…
Rapidamente avança pelas veias e alastra-se a todo o corpo; rejubila enquanto tonifica os músculos, fortalecendo-os…
Serpenteia até à vista, tornando-a cristalina e dilatando desmesuradamente as pupilas, anulando a côr dos olhos...
As narinas abertas sorvendo sofregamente o ar em rápidas inspirações...
Toma conta da mente, bloqueia todo e qualquer senso, razão...
Ribomba em festa num coração inflamado de sangue...
Clama por violência, dôr!
Dôr em mim e nos outros... dôr por toda a parte... choros ecoando como sinos em noite de Natal...
Finalmente um grito: longo como um uivo em noite de lua cheia...
Descansa o corpo exausto na noite vazia, perdido de si próprio...
Perdido...
Publicado por jkanoni às 19:53
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Terça-feira, 29 de Agosto de 2006
Sinto-me.... Out of season...

You know what they say about romance
You know what they say about romance
Ever changing love that you can’t
Keep on side a parking keel
Better the thought than the feeling
It’s plain to see
All the things we suffer
From the hands of humanity
But that ain’t me
That ain’t me
But that ain’t me
That ain’t me
And I know there’s a god inside it
Should I love your key
Adorn you
And get inside
But that ain’t me
That ain’t me
But that ain’t me
That ain’t me
And I know I may come to doubt it
But if I ever wish
I wish we could all believe
That in this daylight world
Is a world
Where love can be
And I won’t ever forget it
Cos that ain’t me
That ain’t me
Cos that ain’t me
That ain’t me
Terça-feira, 18 de Julho de 2006
Ao volante

Gosto de me atirar por uma estrada que se rasga adentro pelos campos.
As zonas residenciais vão escasseando a cada quilómetro que passa e, sem ser uma mudança brusca, sinto já o cheiro e a imensidão das vastas planícies.
No capim castanho e seco, ponteiam inúmeras cabeças de gado, como céu em noite estrelada visto num negativo de um filme a cores: pontos negros numa imensidão de ténues castanhos...
Despontam algumas casas longe da estrada, encobertas em áreas arborizadas que destoam do mar castanho; rolam alguns automóveis que, preguiçosamente, domingueiramente se afastam para a berma da estrada quando os passo.
O sol afasta-se na sua curva descendente desde que atingiu o seu prematuro ponto máximo, tímido deste frio que teima em se colar à terra em descanso...
Avanço pela estrada, gozando a perfeição das leis mecânicas que sussuram sob o motor, aplicando no pisar do acelerador a física da velocidade, demonstrando a previsibilidade matemática de tangentes e leis trigonométricas a cada curva, ultrapassagem, aproximação de outros veículos...
Tudo parece tão perfeitamente equacionado, tão bem balanceado, que me começo a sentir inconfortavemente fora deste paraíso de fórmulas tão exactas, sem margem para erros...
Fosse este meu coração como um relógio, batendo monotonamente como gotas de uma torneira mal fechada numa pia de zinco, certo que o tempo que ainda tem não o preocupa: não é muito nem é pouco, é apenas o seu tempo...
Fosse eu...
Gosto de
Sexta-feira, 7 de Julho de 2006
La Quête

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.
Jacques Brel
Quinta-feira, 6 de Julho de 2006
A rapariga de papel

Conservei esta fotografia consciente que a memória me iria trair.
Traír-me por todo o processo de nos conhecermos, pelas conversas, sorrisos, gestos, afectos, cuidados... cuidarmo-nos um ao outro.
E finalmente por todos os beijos e marés de paixão...
Depois pela dor insuportável da separação e da mente, crente, que se fechou num coma teimoso de onde não consigo acordar.
Sempre que olho para esta fotografia o olhar queda-se vazio, a mente impenetrável e o coração distraido.
Lembro ruas cheias de chuva no alcatrão preto na madrugada; tardes com o brilho de calçadas ofuscantes sob um sol implacável; noites de nevoeiro sensuais e difusas, enluaradas, sedutoras...
Ouço acordes surdos, remotos, que me fazem sorrir...
Vejo cores fortes, vivas, alegres, mas tão sem sentido.
E mais pequenas coisas...
Cheiro o café, acabado de fazer, entrar pelo quarto adentro enquanto ainda deitado numa cama vazia, coberta de lençóis revoltos e suados de paixão...
Vou até à cozinha onde tudo se encontra impecavelmente branco e inconfortavelmente asséptico....
Ouço o chuveiro a correr enquanto regresso ao quarto e assim que entro na casa de banho é o silêncio que tudo embacia como vapor quente.
Sinto o sal de beijos de lágrimas nos lábios e vejo um mar cinzento de inverno numa praia ventosa; olho-me caminhando com passos vigorosos e decididos para um destino incerto com pegadas teimosas e profundas que as vagas não apagam na areia fina e molhada.
Tudo que guardo é este pequeno pedaço de papel quadrado, esmaecido e já gasto...
Sem te recordar, sem me conseguir lembrar de ti, sempre que olho para esta fotografia chamo-te a rapariga de papel...
Publicado por jkanoni às 10:27
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Quinta-feira, 29 de Junho de 2006
Mais frio que a própria sombra

Foi-se a amena nostalgia do Outono e o Inverno tomou conta de mim.
Sinto-me como este sol que brilha demasiado longe e não aquece, rodeado de muros que se tornam desmesuradamente altos, prolongando infinitamente as esguias e frias sombras...
Sinto-me ainda mais frio que a minha própria sombra...
Um frio dormente que corre pelas veias, tornando os dedos insensíveis, incapazes de segurar a caneta.
Paira o fumo do cigarro como anéis entre os dedos.
O frio avança, pesaroso, paralisante, até encontrar o que mais quer, talvez o que mais ambiciono: hibernar a mente, dar-lhe algum descanso.
O olhar, vítreo, embaciando-se a pouco e pouco, queda-se fixo na folha de papel branco à minha frente.
Um silêncio denso pesa por todo o lado, calando o bater do coração.
A língua tolhe-se de frio entre os dentes, obrigando os lábios a fecharem-se, a voz a silenciar-se.
Morre o cigarro entre os dedos, a cinza ainda petrificada na sua forma inicial.
Lentamente fecho os olhos enquanto o bater do coração se torna mais ténue, até deixar de o ouvir, de o sentir...
O mundo fechou-se num frio silêncio.
Até uma nova Primavera... que sempre há-de regressar.
Publicado por jkanoni às 12:04
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Domingo, 28 de Maio de 2006
O meu amigo está doente…

O meu amigo está doente…
A alma já não o encoraja; o corpo desistiu; o quotidiano torna-o um estranho; já nada o identifica…
Perdeu-se da familía na monotonia de uma vida estagnada; secaram-se-lhe os rasgos de alegria num corriqueiro dia-a-dia; tão estranho é o seu mundo, tão solitário se tornou o seu dia, tão vazias são as suas noites...
Afastou-se dos amigos, ocos e fossilizados, onde o mundo gira à volta da prestação da casa, do novo modelo desportivo de uma qualquer marca de automóvel, das vitórias/derrotas dos clubes de futebol, dos últimos acontecimentos televisivos...
Uma noite apercebeu-se que chegou a altura de dar o passo.
E deu-o, convicto que nada mais o interessava neste mundo.
O meu amigo está internado, dizem que está maluco; isolaram-no do mundo de idiotas, cabotinos e ignorantes que estranham não ser possível ser feliz nesse cantinho plantado à beira mar e tão bem governado pela nata e fina flôr eleita democraticamente em sucessivas eleições onde se promovem uns aos outros como dentífricos ou iogurtes (mais bífidos menos neurónios, qb)...
Fecharam-no do mundo exterior, onde se mata e se morre em guerras absurdas, onde a fome e a doença campeiam ceifando tudo e todos, onde nos teimam em ditar o que é certo e errado, indo contra os princípios que tão fervorosamente defendemos enquanto jovens.
Afastaram-no das politiquices no emprego, dos lambe-botas, dos engraxadores de profissão, dos incompetentes engravatados e carregados de diarreias mentais que pululam como moscas com cada nova administração.
Anularam-lhe a televisão, alhearam-no das novelas, dos reality shows, das manipuladas entrevistas e debates que pululam pelos diferentes canais a toda a hora, numa dormência mental tão bem calculada e estupidificadora.
Pediu que lhe dessem papel e caneta.
É mesmo louco!, hoje usamos a internet, porque raio alguém saudável pediria um bloco e uma caneta de tinta permanente?
Pediu livros, que alguém fosse a sua casa e lhe trouxesse os livros que escrevinhou numa lista...
“Quer que lhe traga o portátil? Temos facilidades de ligação na clínica...”
O meu amigo, que é maluco, recusou...
Pediu Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Natália Correia, Agostinho da Silva, T. E. Lawrence, Céline, Boris Vian, Henry Miller, Ezra Pound, Hemingway...entre outros.
Da sua “caverna”, aconchegado no sofá em frente à janela, aproveitando os dias soalheiros e longos de um Verão prematuro, o meu amigo passa os dias a ler... abrem-se mundos a cada página que folheia... um sorriso aflora-lhe os lábios...
O meu amigo sente-se feliz.